


Por Jacqueline Ernesto, coordenação do programa CriaPaz
Em contextos marcados pela desigualdade socioeconômica, nos quais crianças que vivem essa realidade pouco têm acesso a bens culturais, a arte é vista como algo supérfluo, desnecessário ao seu desenvolvimento integral. Frente a esse cenário, proporcionar atividades artístico-culturais a esse grupo de pessoas ultrapassa a dimensão do recreativo, constitui-se em oportunidade de ampliação de repertório, do despertar do potencial criativo, de oferecer estratégias de autoconhecimento e de comunicação. Além, obviamente, de assegurar, entre outros direitos de fundamental importância, o direito à cultura, previstos primordialmente no Art. 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
É na perspectiva de alcance dessas outras dimensões que atividades artístico-culturais são desenvolvidas no âmbito do Projeto CriaPaz, projeto desenvolvido pelo Grupo Adolescer (GA) nas comunidades de Caranguejo Tabaiares e Roda de Fogo, localizadas na Zona Oeste do Recife. No escopo do projeto, as vivências artísticas assumem, portanto, papel fundamental para o fortalecimento de vínculos e desenvolvimento de habilidades pessoais e coletivas. Ao promover oficinas artísticas nas comunidades, o GA cria espaços seguros para que as crianças possam experimentar, brincar, criar, se expressar e se reconhecerem como sujeitos de direitos. Cria e oportuniza, também, uma chance de se verem protagonistas, capazes de produzir ativamente cultura e arte em seus territórios.
No Projeto CriaPaz, as crianças passam por módulos formativos, nos quais se tornam multiplicadoras de informações para seus pares (outras crianças que vivenciam contexto social semelhante). Nesse sentido, as atividades artístico-culturais são adotadas como recurso com potencial de comunicação. Isto porque, por meio das diversas linguagens artísticas, as crianças encontram diferentes formas de expressar sentimentos, ideias, desejos e experiências que nem sempre conseguem traduzir por meio da linguagem verbal e, inclusive, conseguem repassar os conteúdos assimilados nas suas jornadas formativas.

Por ter um caráter de proteção e prevenção à diversas violações de direitos, sobretudo das violências sexuais contra crianças e adolescentes, o Projeto CriaPaz, utiliza também da arte como estratégia de enfrentamento a tais violações. Ao final de cada ciclo de oficinas, as crianças participantes realizam apresentações, com viés comunicativo, nas quais, através da expressão artística, compartilham o que aprendem e contribuem para a autoproteção das crianças espectadoras.
Outro aspecto essencial é a contribuição das vivências artísticas para o fortalecimento da autoestima e da autoconfiança, permitindo que as crianças reconheçam suas potencialidades e, se enxergando como sujeitos ativos dos locais onde escrevem suas histórias, passem a vislumbrar novas formas de vivenciar seus territórios. Territórios estes, que são espaços estigmatizados por serem economicamente empobrecidos, o que afeta a forma como as próprias pessoas os veem. Ou seja, não é raro que os próprios habitantes não o enxerguem como espaços com potencialidade cultural e de produção de beleza, arte e cultura, para além de todas as problemáticas envoltas na violência urbana.

Ainda considerando a construção de subjetividade das crianças, o fazer artístico viabilizado pelo projeto visa impactar também na dimensão da criatividade, visto que crianças criativas podem apresentar boa capacidade para solução de problemas e construção de diferentes perspectivas diante dos desafios que as atravessem. Para o público infantil em situação de vulnerabilidade, estimular essa capacidade pode significar ampliar horizontes e fortalecer a percepção de que existem diferentes caminhos e possibilidades para suas vidas, para além dos já demarcados socialmente.
Ao investir em arte e cultura através do Projeto CriaPaz, o GA investe nas potencialidades das crianças e na construção de oportunidades mais equitativas. Ao oportunizar o acesso a experiências artístico-culturais, a organização possibilita que as crianças tenham contato com diferentes formas de expressão, que reconheçam sua própria voz, seus talentos, habilidades e descubram diferentes maneiras de ocupar os espaços sociais. Mais do que experiência de criação, a arte, nesse contexto, é também ferramenta de transformação, de favorecimento do desenvolvimento humano e de fortalecimento de identidades pessoais, coletivas e territoriais.
E, independente de marcadores sociais, tais como raça, classe e gênero, que todas as crianças possam ter seus horizontes ampliados e que não lhes falte educação, saúde, alimentação, lazer e proteção. Que em suas vidas também estejam presentes a arte e a cultura, pois que isto, para a integralidade do ser humano, é também alimentação.
