


Por Thuanny Araújo (Assistente Social do Grupo Adolescer)
André Fidelis (Coordenação – Grupo Adolescer)
Refletir sobre a violência no Brasil, se faz necessário para entendê-la como um problema multifatorial e endêmico, com raízes históricas intrinsecamente ligadas à forma de consolidação do Estado brasileiro e as respostas dadas frente às expressões da questão social por meio de Políticas Públicas ineficientes e/ou excludentes ao longo desse processo, sempre em um caráter repressivo as camadas mais pauperizadas da população. Outro fator que demanda uma atenção crítica nesse processo é a imprecisão dos dados da violência de modo geral, onde se não há o mapeamento ou a quantificação de forma séria e adequada, há a falsa sensação de segurança ou de redução da violência.
Ao direcionarmos nosso olhar para a realidade da infância, adolescência e juventude brasileira, e fazendo o recorte social e racial, observamos que este fenômeno é estrutural, e historicamente, além de crescente se naturaliza em uma sociedade adultocêntrica, racista e punitivista, que desumaniza e custa a enxergar esse público vulnerável enquanto sujeitos de direitos mesmo com o que preconiza as normativas.
Entendemos por violência estrutural, aquela que incide sobre a condição de vida das crianças e adolescentes, a partir de decisões histórico-econômicas e sociais, tornando vulnerável o seu crescimento e desenvolvimento. Por ter um caráter de perenidade e se apresentar sem a intervenção imediata dos indivíduos, essa forma de violência aparece “naturalizada” como se não houvesse nela a ação de sujeitos políticos. Portanto é necessário desvendá-la e suas formas de reprodução através de instrumentos institucionais, relacionais e culturais. Minayo (2001)
A morte violenta é a principal causa de óbito de jovens entre 15 e 29 anos no Brasil. Em 2023, 34% das mortes de jovens no país foram consequência de homicídios. Do total de 45.747 homicídios registrados no Brasil em 2023, 47,8% vitimaram jovens entre 15 e 29 anos. 21.856 jovens tiveram suas vidas ceifadas prematuramente, o que corresponde a uma média de 60 jovens assassinados por dia no país. Considerando a série histórica dos últimos onze anos (2013-2023), foram 312.713 jovens vítimas da violência letal no Brasil. Atlas da Violência (2025)
Para contribuir com a desnaturalização da violência, o Grupo Adolescer cria, em 2018 o Observatório da Violência. Criado com o propósito de ser um instrumento para a promoção da cultura de paz, o Observatório busca, a partir da identificação das violências, provocar instituições locais a promoverem ações de prevenção e enfrentamento, além de cobrar do Poder Público a implementação de políticas que fortaleçam os territórios periféricos e suas populações.
Assim, o Observatório da violência, busca mapear em tempo real as violências que ocorrem nos territórios que o Grupo AdoleScEr atua, identificando, quantificando e analisando os dados sobre as múltiplas violências que ocorrem, perfil das vítimas e agressores e a partir disto mensurar violações e as ausências do Estado em determinada comunidade e como a partir disto podemos incidir sobre a comunidade e reivindicar uma atuação qualificada do Poder Público que dê respostas qualificadas e assegurem vivências pautadas no acesso aos diversos segmentos sociais, seja na saúde, educação, lazer, assistência social, entre outros, e no respeito à dignidade humana.
As comunidades monitoradas têm em comum a condição de vulnerabilidade social. Enfrentam desde a ausência de saneamento básico até a insegurança alimentar, fatores que impactam diretamente a vida de seus moradores. São territórios historicamente marginalizados, marcados por representações sociais negativas e por estigmas que reforçam a exclusão.
Santo Amaro, por exemplo, ainda é associada a conflitos entre facções e à atuação do crime organizado. Em Caranguejo Tabaiares, operações policiais constantes afetam a rotina dos moradores. Em Santa Luzia, especialmente na área conhecida como “favelinha”, às margens do Rio Capibaribe, dois grandes incêndios já desalojaram diversas famílias e o medo de um novo episódio ainda paira. Em Roda de Fogo, o histórico de assaltos nas ruas impôs, por muito tempo, um clima de insegurança generalizada.
Todas essas comunidades compartilham um traço comum: nasceram da resistência de seus moradores pelo direito à moradia. Três delas, inclusive, seguem enfrentando o avanço agressivo da especulação imobiliária, um processo que ameaça expulsar essas populações para ainda mais longe do centro da cidade.
Os dados do observatório são compilados e instrumentalizados em um documento que subsidiam as ações de articulação e reivindicação com a Rede socioassistencial, mas principalmente com o Poder Público, através dos órgãos e secretárias responsáveis, principalmente no âmbito da segurança pública, assistência social, cidades e Educação.
O mapeamento subsidia ações com a comunidade que desnaturalizam as violências no contexto comunitário e proporciona o debate crítico e a tomada de consciência destes sobre direitos sociais e sobre participação e mobilização social, instigando a comunidade e fomentando o debate político para assim exigir mais políticas públicas.
A metodologia institucional do Grupo AdoleScER não nos permite tratar esses dados como meros números coletados. Temos a responsabilidade e um compromisso social inegociável, de que, por trás de cada porcentagem, há vidas reais que foram expostas, sob diferentes formas e intensidades, a situações de violência.
Estamos falando, majoritariamente, de pessoas negras e moradoras de favelas que, além de enfrentarem cotidianamente a má distribuição de renda, a precariedade da mobilidade urbana e, em alguns casos, a desestruturação familiar, ainda precisam ser resilientes diante da ausência de segurança pública. É uma luta desigual.
Nas periferias, são diversas as instituições sociais que sustentam o peso da ausência do Estado. São elas que complementam a educação de muitas crianças, adolescentes e jovens; que garantem, muitas vezes, a alimentação básica de famílias inteiras; que contribuem para a construção de projetos de vida e o fortalecimento pessoal dos moradores e moradoras; e que, com dedicação e responsabilidade, propõem ações voltadas à promoção de uma cultura de paz.
No entanto, sabemos que essas iniciativas, por mais valiosas que sejam, não podem substituir o papel do Poder Público. Se essas ações não estiverem articuladas com políticas públicas estruturantes, pouco se transformará de fato. É dever do Estado modificar realidades, garantir a presença efetiva nas áreas mais vulnerabilizadas e assegurar o acesso a direitos básicos para que nenhuma família permaneça desassistida diante dos sofrimentos sociais que enfrentam.
A realidade, infelizmente, ainda é outra. E é justamente por isso que o Grupo AdoleScER, junto com tantas outras organizações da sociedade civil, segue firme em seu trabalho de base, acreditando na força dos territórios e no poder da mobilização coletiva.
O Adolescer também produziu um vídeo explicativo para que melhor possam entender como funciona o Observatório da Violência. O vídeo pode ser encontrado no link: https://www.instagram.com/reel/DOoGK5vjl52/
Citações:
https://forumseguranca.org.br/publicacoes/atlas-da-violencia/
https://www.scielo.br/j/rbsmi/a/mQqmmSTBf77s6Jcx8Wntkgg/?format=html&lang=pt#:~:text=Conforme%20mostra%20Souza42%20em,da%20viol%C3%AAncia%20para%20a%20sa%C3%BAde